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Entrevista com Leandro Hainis

Filipe Bartowski bateu um papo bem legal com Leandro Hainis, dublador e diretor de diversos jogos da série Assassin’s Creed, e também ex produtor na Sergio Moreno Filmes.

Filipe Bartowski: Olá, Leandro! Se apresente ao público, nos fale sobre sua carreira até aqui e nos conte um pouco mais sobre seu trabalho na Sergio Moreno Filmes.

Leandro Hainis: Vamos lá. Sou ator desde quando nasci, a família já dizia isso para minha mãe. Mas resumindo, trabalho com teatro entre amador e profissional desde os meus 15 anos de idade. Sou de São Paulo capital, comecei com oficinas livres. Passei a fazer parte de amostras no SESC Pompéia com uma oficina voltada para jovens e saíamos em apresentações por outras unidades SESC. Fiz Célia Helena, Macunaíma, mas como sou de família humilde tinha que pagar meus cursos trabalhando e não completei alguns deles. A minha formação veio mesmo com a Faculdade Paulista de Artes. Onde me formei em Artes Cênicas. Se formos aprofundar tem muitas histórias e trabalhos. Comecei no estúdio Sergio Moreno Filmes em 2012, um ano depois de chegar ao Rio buscando trabalho na TV, comecei como freelancer e acabei ficando, fiz treinamentos de produção de locução para game em Madrid durante um mês e desde então trabalhei em grandes projetos como Call of Duty, Assassin’s Creed, World of Tanks, The Witcher 3, Skylanders, Far Cry… e outros.

Filipe Bartowski: Como são feitos os testes de vozes em games? É semelhante aos testes de filme?

Leandro Hainis: Trabalhamos com um processo parecido, temos um banco de vozes com atores, atrizes. Quando solicitado enviamos a voz do profissional que se encaixa no perfil que o cliente está buscando. Aí entra a sensibilidade do produtor em perceber se aquele profissional está apto para fazer o trabalho, tem características que podem contribuir ou enriquecer o trabalho. Este processo se chama Database. E temos outro processo, geralmente quando o cliente sente a necessidade de ver o ator realizando o trabalho, gravamos uma pequena amostra, um Live Casting. A forma de testar uma voz varia de estúdio para estúdio e de cliente para cliente. Mas vale lembrar que existem personagens onde o cliente deixa que se atribua à qualquer ator, livremente. Claro que não são protagonistas.

Filipe Bartowski: Você tem essa versatilidade de saber quem se encaixa no perfil do personagem só de analisar o personagem e já ter de cabeça boa parte das vozes? Tipo, estalou na sua mente a voz perfeita, como um insight?

Leandro Hainis: No começo foi bem difícil, mas o Sergio Moreno abriu as portas e me deu todo o suporte, como um “pai” de profissão, a quem sou grato, e me ajudou muito neste sentido. Mas sempre levou muito em conta a minha opinião. Fui observando cada ator, atriz, conhecendo o trabalho, limitações e facilidades; e hoje sim, tenho as vozes como arquivos mp3 na minha cabeça, que fico consultando. Além do nosso infalível banco de dados para dar uma força! rs. Adoro novos profissionais. Sempre busco dar oportunidade ao novo, que é uma filosofia de onde trabalho também. Essa coisa de decorar as vozes é uma facilidade minha. Sou apaixonado pelo trabalho de ator e todo ator é um grande observador. Fico atento a cada detalhe do trabalho de todos os profissionais.

Filipe Bartowski: Recentemente, alguns jogos receberam dublagem mista. Você sabe dizer como é feita a mistagem? São os estúdios que se comunicam e se “escolhem”? Ou é o próprio cliente que se encarrega disso? Assim enviando os arquivos para cada estúdio?

Leandro HainisEste é um assunto mais delicado, que envolve custos, e preferências do cliente, do qual prefiro não me aprofundar muito. Mas sim, quem define, como disse antes, por custo ou preferência, se o trabalho será localizado em mais de um estado no Brasil ou até mesmo fora dele, é o cliente final. No inicio do meu trabalho tínhamos projetos completos, fazíamos a localização de todas as vozes em um game. Como em The Witcher 3, com seus mais de 800 personagens. Já o Gwent foi gravado em outro estado também. Hoje gravo apenas o que solicitam e sei que existem partes de um mesmo projeto sendo feito em outros lugares. Mas não nos envolvemos.

Filipe Bartowski: Então dá um pouco de preocupação de como vai ficar o resultado final? Visto que não está tudo sob o controle de vocês?

Leandro Hainis: Não, apesar de pioneiros na localização PT-BR para games no Brasil, não podemos pensar que apenas nosso estúdio tem capacidade de fazer algo bacana, ou que o profissionalismo do Brasil se limite a um estado apenas. Acredito que assim como nós, as exigências grandes quanto a qualidade dos profissionais, equipamentos e salas de gravação, também foram feitas a estes estúdios e certamente estes estão qualificados. Teremos um trabalho mais rico culturalmente. Vamos ter um panorama bacana disso com os lançamentos deste final de ano. Aguardar para ver.

Filipe Bartowski: A próxima pergunta era sobre isso, rs. Nos ultimos anos houve um aumento de produções dubladas em outros estados fora do eixo SP-RIO, como alguns jogos da Sony, por exemplo. O que você acha disso?

Leandro Hainis: Fico com saudade de toda a correria e da dimensão do trabalho que tínhamos em mãos. Mas como outro mercado qualquer, há oferta e procura. E os estúdios e profissionais estão de olho neste mercado, e se profissionalizando cada vez mais para entrar na disputa. Quem ganha são os fãs, gamers e youtubers, com o trabalho se aperfeiçoando e tendo cada vez mais qualidade. Concorrência, de certa forma, é saudável. A opinião de vocês conta muito também, opinem ao gostarem ou não de um trabalho.

Nosso trabalho promove acessibilidade e facilita a compreensão do universo do projeto. E um trabalho muito bonito. Ele sendo bem feito, na minha opinião mais do que pessoal, não importa o sotaque.

Filipe Bartowski Isso por um lado é realmente ótimo. Quem ganha são os fãs, porém na visão de mercado, acho que pode ser um pouco ruim, pois todo fornecedor novo, abaixa seus preços. E quem adora é o cliente.

Recentemente a Synthesis fez a localização do “Deus Ex: Mankind Divided” fora do eixo RJ-SP, e os fãs não gostaram do resultado final – apesar de não terem feito muito barulho.

Leandro Hainis: Aí que está! Sem o feedback do público alvo não se tem parâmetro. Não estou interado sobre este projeto, mas sem o feedback, o cliente final simplesmente pensa ter feito um bom negócio.

Filipe Bartowski: O Bartowski Games, o Brasil Game Dub e a Jogos Dublados surgiram desse propósito. Nós percebemos a necessidade desse setor, e decidimos atendê-la. Trabalhar entre vocês e os fãs. Dando voz e movimentando a opinião do público.

Leandro Hainis: Bacana, uma grande oportunidade dos gamers se manifestarem. Trabalho para que eles fiquem felizes! 

Parabéns pela iniciativa.

Filipe Bartowski: Obrigado 🙂

Filipe Bartowski: Podemos falar do queridinho de muitos gamers? Assassin’s Creed

Leandro Hainis: Claro, foi meu segundo projeto na casa!

Filipe Bartowski: Você participou da dublagem de quase todos os jogos dublados da série Assassin’s Creed. Como se sabe, entre os jogos recentes da franquia há pouco tempo de intervalo entre os lançamentos. Para vocês dubladores: Há tempo para curtir o trabalho? Ou há a impressão de que os jogos são dublados praticamente em sequência?

Leandro Hainis: Tem um intervalo curto entre um projeto e outro, mas depois do carnaval, as coisas já começam a ferver novamente! Num intervalo curto, vamos fazendo o próximo e curtindo o feedback do último que fizemos.

Filipe Bartowski: Então nem dá tempo de jogar? rs

Leandro Hainis: Hahaha, praticamente não, mas acompanho muitos vídeos da galera jogando. Assisto como se fosse uma série.

Filipe Bartowski: Em 2014 tivemos dois Assassin’s Creed, o Unity e o Rogue. Vocês dublaram os dois games simultaneamente?

Leandro Hainis: Sim, foi uma experiência bacana. Dois universos diferentes. Ficou muito corrido mesmo e foi necessário diversificar o elenco um pouco, pois foi simultâneo. Tive o prazer de poder trabalhar com o templário Shay, que é dublado pelo Alexandre Moreno. Um grande nome da dublagem e, que até hoje, só fez um game, e foi comigo!

Ele fez parte do Assassin’s Creed: Rogue” que se passou no período de tempo entre “Black Flag” e “AC III” e mostrou episódios importantes na saga da família Kenway – O templário Haytham, filho de Edward e pai de Connor.

Filipe Bartowski: Alexandre Moreno esse aí até os haters de dublagem gostam. O cara é mitológico!

Leandro Hainis: Sim, não tem como não se identificar com o trabalho. Além de ser um dos mestres da dublagem. Sou fã.

Filipe Bartowski: Os Morenos são “fogo”!!!

Leandro Hainis: Hahaha, temos até uma brincadeira em estúdio, quando acertamos o sincronismo de forma impecável nós dizemos que “MORENAMOS”. Sou muito fã do meu chefe (Sérgio Moreno) também, rs.

Fico feliz por ter a chance de trabalhar com games, vejo trabalhos brilhantes como o de Miguel Rosemberg, que já nos deixou ou ainda de atores veteranos como Roberto Pirillo que trazem um brilho tão especial e sensível para qualquer projeto. E saber que existem pessoas prestando atenção no seu trabalho é muito gratificante. Espero poder fazer parte disso tudo, por muito mais tempo. Obrigado a você Filipe que nos promove este espaço e contato com o nosso público.

(Se passaram quase duas horas de conversa; não era pra ter demorado tanto, mas é que o bate-papo foi muito maneiro. Eu fiquei super feliz e um pouco emocionado, fiquei sem internet por uns 5 minutos e quando voltei o Leandro precisou sair para sua corrida diária, mas envie o restante das perguntas pra ele responder depois e ele respondeu no mesmo dia rsrs):

Filipe Bartowski: Você é profissional e não deve recusar trabalhos em dublagem, porém, há algum jogo específico que você espera loucamente poder dublar, dirigir? Se sim, qual?

Leandro Hainis: Por gostar muito de produzir e localizar os jogos, fico ansioso por qualquer pequena promessa de projeto que surja, a mídia especula sobre um novo Assassin’s Creed. Estou ansioso para que se confirme e que eu possa trabalhar neste projeto. Gostaria de repetir a dose com Until Dawn e estou ansioso pelos lançamentos de novas tecnologias e consoles.

Filipe Bartowski: Quais as lições que as dublagens de filmes e séries podem levar para a dublagem de jogos no Brasil?

Leandro Hainis: Vejo estes dois trabalhos como duas técnicas completamente diferentes, já que para o game não temos imagem do personagem, apenas a ˜wave” do áudio original, mas acredito que o que cria a magia, tanto para a dublagem, quanto para a localização de games é o trabalho do ator ou atriz, quanto mais entregue, realista e sensível for este profissional, quanto maior a sua qualidade de interpretação, leitura e dicção, mais bacana será o resultado final.

Filipe Bartowski: Como uma desenvolvedora de games opta por um estúdio específico? Outros games que o estúdio já tenha localizado ajuda na decisão deles?

Leandro Hainis: Não lido com a parte comercial, mas observei que vai muito do empenho deste setor e da qualidade do produto e flexibilidade nas negociações. Como em qualquer outro relacionamento comercial. Pode-se agradar o cliente ou não. Mas falo sem nenhuma base prática, só como imagino que deva ser. Cuidar da parte artística, já me dá bastante trabalho e domino mais.

Filipe Bartowski: Em que a opinião do público pode influenciar na escolha de uma desenvolvedora por um determinado estúdio, ou um determinado dublador?

Leandro Hainis: Acredito que a opinião é determinante. Na indústria cultural, quem visa grandes lançamentos, busca  em geral, um diferencial, uma forma de se destacar e agradar ao público que se deseja atingir. As experiências passadas desta desenvolvedora ou até mesmo de seus concorrentes devem certamente contar e guiar o departamento de marketing, que planeja esta estratégia ou condições de qualidade que prefere para o seu produto. Desta forma escolhem este ou aquele estúdio, a voz de determinado personagem específico e o pedem para realizar trabalho.

Leandro Hainis: Um grande abraço e boa noite cara. Parabéns pelo trabalho.

Um grande obrigado ao Leandro Hainis! E obrigado à você, que acompanhou até aqui!

Sugestões ou pedidos para futuras entrevistas, não deixe de comentar!

Abraços!

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